Entre a vontade de participar e a crença de que vale a pena
Por: Manuel Rosa – 7 minutos de leitura
É uma das queixas mais repetidas das sociedades modernas. As pessoas não participam.
Não participam em associações.
Não participam em assembleias locais.
Não participam em reuniões de condomínio.
Não participam em partidos políticos.
Não participam em debates públicos.
E, em muitos casos, nem sequer participam nas eleições.
A conclusão parece evidente. As pessoas tornaram-se indiferentes.
Egoístas.
Apáticas.
Desinteressadas.
Mas será mesmo assim?
Ou estaremos a olhar apenas para a parte visível de um fenómeno muito mais complexo?
Porque, antes de concluir que as pessoas participam menos, talvez seja útil perguntar:
Participam menos em quê?
E porquê?
O problema visível
Os números parecem apontar numa direção clara.
Muitas organizações têm dificuldade em recrutar voluntários.
Os partidos políticos perderam militantes.
A participação em várias estruturas comunitárias diminuiu.
A confiança em instituições parece mais frágil do que em décadas anteriores.
Em muitos países, a abstenção eleitoral tornou-se um tema recorrente.
Perante este cenário, surge frequentemente uma explicação simples. As pessoas deixaram de se preocupar. Mas as explicações simples raramente explicam fenómenos complexos. Porque, enquanto algumas formas de participação diminuem, outras parecem crescer.
Milhões de pessoas participam diariamente em redes sociais.
Assinam petições.
Partilham campanhas.
Comentam decisões públicas.
Mobilizam-se rapidamente em torno de determinadas causas.
Talvez a questão não seja apenas a quantidade de participação. Talvez seja a transformação das formas de participação.
O tempo tornou-se mais escasso?
Uma das explicações mais frequentes é a falta de tempo. E existe alguma verdade nisso. Muitas pessoas sentem que vivem permanentemente ocupadas.
Trabalho.
Família.
Deslocações.
Formação.
Obrigações administrativas.
Notificações constantes.
O dia parece cada vez mais pequeno.
Participar exige tempo. E o tempo tornou-se um recurso disputado. Mas esta explicação também tem limites. Porque as sociedades modernas dispõem de tecnologias que poupam tempo de formas que gerações anteriores dificilmente imaginariam.
Por isso, talvez o problema não seja apenas a quantidade de tempo disponível. Talvez esteja relacionado com a forma como esse tempo é distribuído, valorizado e utilizado.
O incentivo para ficar de fora
Imagine uma reunião onde uma pessoa investe horas a preparar propostas.
Participa.
Argumenta.
Contribui.
No final, sente que nada mudou. Na reunião seguinte talvez regresse. Na terceira talvez hesite. Na quarta talvez desista.
A participação depende fortemente da perceção de eficácia. As pessoas tendem a investir energia onde acreditam que podem produzir resultados.
Quando sentem que as decisões já estão tomadas.
Quando sentem que ninguém as ouve.
Quando sentem que o esforço não produz consequências visíveis.
O incentivo para participar diminui.
Isto não acontece apenas na política.
Acontece nas empresas.
Nas escolas.
Nas associações.
Nas comunidades locais.
E até dentro das famílias.
A confiança faz diferença
Existe uma palavra discreta que ajuda a explicar grande parte da vida coletiva. Já a referi em artigos anteriores.
Confiança.
Quando confiamos nas instituições, estamos mais dispostos a colaborar.
Quando confiamos nos outros cidadãos, cooperamos mais facilmente.
Quando acreditamos que as regras são aplicadas de forma relativamente justa, aceitamos participar mesmo quando nem sempre concordamos com os resultados.
Mas a confiança funciona em dois sentidos. As instituições precisam de confiar nos cidadãos. E os cidadãos precisam de confiar nas instituições. Quando esta relação se fragiliza, a participação tende a diminuir. Não necessariamente por desinteresse. Mas porque as pessoas começam a duvidar da utilidade do seu envolvimento.
O paradoxo tecnológico
À primeira vista, a tecnologia deveria facilitar a participação. E, em muitos aspetos, facilita.
Nunca foi tão simples contactar representantes políticos.
Assinar uma petição.
Aceder a informação pública.
Organizar uma iniciativa.
Mobilizar pessoas.
Mas existe também um efeito secundário curioso. A facilidade de expressão pode criar a sensação de participação.
Comentamos.
Partilhamos.
Reagimos.
Publicamos.
E sentimos que intervimos. Por vezes intervimos realmente. Mas outras vezes confundimos expressão com participação.
Uma opinião publicada em segundos não produz necessariamente o mesmo efeito que meses de envolvimento numa associação, numa comunidade local ou num projeto coletivo.
A tecnologia ampliou as possibilidades de participação. Mas também alterou a forma como a entendemos.
A educação para a participação
Costumamos associar a participação à política. Mas talvez esta comece muito antes.
Na escola.
Na família.
Nas atividades comunitárias.
Na forma como aprendemos a ouvir.
A discordar.
A cooperar.
A assumir responsabilidades.
Participar não é uma capacidade automática. É uma competência que se desenvolve.
Tal como aprendemos matemática ou uma língua estrangeira, também aprendemos a viver em comunidade. Quando esta aprendizagem enfraquece, os efeitos podem demorar anos a tornar-se visíveis. Mas acabam por surgir.
Governo, Território e Povo
Talvez a participação seja um dos melhores exemplos da relação entre Governo, Território e Povo.
O Governo cria instituições e mecanismos de participação.
O Território aproxima ou afasta os cidadãos dos centros de decisão.
O Povo participa, coopera, contesta ou afasta-se.
Uma pessoa que vive numa pequena comunidade pode sentir uma ligação mais direta às decisões locais. Noutras circunstâncias, as estruturas de decisão podem parecer distantes e abstratas.
A forma como organizamos o território influencia a forma como participamos.
A forma como governamos influencia a confiança.
E a confiança influencia a disposição para participar.
Tudo está ligado.
O que acontece quando participamos menos?
Os efeitos raramente aparecem de imediato.
Uma democracia não deixa de funcionar porque menos pessoas aparecem numa reunião.
Uma associação não desaparece porque alguns voluntários se afastam.
Uma comunidade não colapsa porque uma geração participa menos.
Os problemas acumulam-se lentamente.
Menos participação significa menos diversidade de perspetivas.
Menos capacidade de corrigir erros.
Menos fiscalização.
Menos envolvimento comunitário.
Menos sentimento de pertença.
Com o tempo, as instituições podem continuar a existir. Mas tornam-se progressivamente mais frágeis. Porque as instituições não vivem apenas de leis e regulamentos. Vivem também das pessoas que acreditam nelas.
Talvez estejamos a fazer a pergunta errada.
Ao longo dos anos fui ouvindo inúmeras explicações para a diminuição da participação.
Individualismo.
Tecnologia.
Consumismo.
Desconfiança.
Mudanças culturais.
Todas parecem conter uma parte da verdade. Mas nenhuma explica tudo. Talvez porque a participação não dependa apenas da vontade individual. Depende também dos incentivos existentes.
Da qualidade das instituições.
Da confiança.
Da educação.
Do tempo disponível.
Da forma como organizamos a vida coletiva.
E talvez dependa de algo ainda mais simples. Da sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós próprios.
Um desafio ao leitor
Pense nas últimas semanas. Em quantas situações teve uma opinião sobre um problema coletivo?
Habitação.
Educação.
Saúde.
Transportes.
Ambiente.
Política.
Agora faça uma segunda pergunta. Em quantas dessas situações participou de alguma forma para além de comentar o assunto?
Não para sentir culpa.
Nem para procurar mérito.
Apenas para observar.
Porque talvez a distância entre aquilo que pensamos e aquilo que fazemos nos diga algo importante sobre o estado da nossa cidadania.
Talvez a pergunta esteja incompleta
A pergunta inicial era:
“Porque participamos cada vez menos?”
Mas talvez exista uma questão mais profunda. Porque uma sociedade não depende apenas da existência de mecanismos de participação. Depende da existência de cidadãos que acreditam que vale a pena utilizá-los.
Talvez por isso a verdadeira pergunta não seja porque as pessoas participam menos. Talvez seja a seguinte:
“Se uma sociedade precisa da participação dos seus cidadãos para se renovar e corrigir os seus próprios erros, o que acontece quando cada vez mais pessoas concluem que participar deixou de fazer diferença?”