Entre o conhecimento que transmitimos e o futuro que imaginamos
Por: Manuel Rosa – 8 minutos de leitura
Quando um pai ou uma mãe pergunta ao filho: — O que aprendeste hoje na escola?
A resposta costuma ser simples.
Matemática.
Português.
História.
Ciências.
Às vezes mais detalhada. Outras vezes resumida a um encolher de ombros.
Mas raramente fazemos a pergunta seguinte. Uma pergunta aparentemente simples, mas surpreendentemente difícil:
“Quem decidiu que era isso que o aluno deveria aprender?”
“Quem decidiu que certos temas entram no currículo e outros ficam de fora?”
“Quem decidiu quantas horas são dedicadas à matemática, à literatura, à educação física ou à história?”
“Quem decidiu quais os acontecimentos históricos considerados essenciais?”
“Quem decidiu quais os autores que merecem ser estudados?”
“Quem decidiu quais os conhecimentos considerados indispensáveis para a vida adulta?”
À primeira vista, a resposta parece fácil. O Ministério da Educação.
Mas, como acontece muitas vezes nos assuntos mais importantes, a realidade é bastante mais complexa. Porque quando perguntamos quem decide o que aprendemos, estamos na verdade a fazer uma pergunta muito maior.
Estamos a perguntar quem influencia a forma como uma sociedade compreende o passado, interpreta o presente e imagina o futuro.
O problema visível
Os debates sobre educação surgem regularmente.
Os programas são demasiado extensos.
Os alunos têm demasiados testes.
Os conteúdos estão desatualizados.
Falta educação financeira.
Falta programação.
Falta pensamento crítico.
Falta educação cívica.
Cada geração parece identificar algo que considera ausente. E talvez tenha razão.
Mas existe uma dificuldade fundamental. O tempo é limitado.
Nenhum currículo consegue ensinar tudo.
Cada escolha implica uma renúncia.
Quando acrescentamos uma disciplina, retiramos espaço a outra.
Quando aprofundamos um tema, reduzimos o tempo disponível para outros.
A educação obriga constantemente a fazer escolhas. E é precisamente aí que a questão se torna interessante. Porque escolher o que ensinar é também escolher aquilo que ficará por ensinar.
O conhecimento nunca é neutro
Durante muito tempo gostei de imaginar a educação como um simples processo de transmissão de conhecimento.
Os adultos sabem.
As crianças aprendem.
Problema resolvido.
Hoje parece-me uma visão incompleta.
Não porque o conhecimento seja falso. Mas porque a seleção do conhecimento é inevitável.
Imagine que tivesse de criar um currículo escolar para uma nova sociedade.
O que incluiria?
Mais história?
Mais ciência?
Mais arte?
Mais tecnologia?
Mais filosofia?
Mais educação financeira?
Mais educação ambiental?
Não existe uma resposta universalmente correta. Cada escolha reflete prioridades.
Valores.
Objetivos.
Preocupações.
Mesmo quando a intenção é puramente educativa, as escolhas continuam a existir. E as escolhas têm consequências.
Quem influencia quem?
A resposta simples seria dizer que os governos definem os currículos. Mas basta observar com atenção para perceber que existem muitos outros intervenientes.
Especialistas.
Universidades.
Professores.
Associações profissionais.
Empresas.
Organizações internacionais.
Pais.
Comunicação social.
Mudanças culturais.
Transformações tecnológicas.
Necessidades económicas.
Todos exercem influência. Por vezes direta. Por vezes indireta.
Quando a economia procura determinadas competências, aumenta a pressão para as ensinar.
Quando a tecnologia transforma profissões, surgem pedidos para atualizar programas.
Quando a sociedade muda, muda também aquilo que considera importante transmitir às gerações seguintes.
Quem decide?
Talvez a resposta mais honesta seja esta: muitos decidem um pouco. Ninguém decide tudo.
A educação como ponte entre gerações
Há uma característica da educação que raramente recebe atenção suficiente. A escola não transmite apenas conhecimento. Transmite herança.
Cada geração escolhe aquilo que considera suficientemente importante para passar à seguinte.
Língua.
História.
Ciência.
Valores.
Instituições.
Memórias.
Experiências acumuladas.
Quando observamos a educação desta forma, percebemos que esta não é apenas uma questão técnica. É também uma questão cultural.
Uma sociedade ensina aquilo que acredita ser necessário para continuar a existir. Por isso, quando o currículo muda, a mudança raramente diz respeito apenas às escolas. Diz respeito à forma como uma comunidade se vê a si própria.
Governo, Território e Povo
Talvez a educação seja outro dos grandes exemplos da relação entre Governo, Território e Povo.
O Governo organiza o sistema educativo.
Define orientações.
Financia escolas.
Estabelece prioridades.
O Território influencia oportunidades.
Uma escola rural enfrenta desafios diferentes de uma escola urbana.
O acesso a recursos, transportes, tecnologia e atividades complementares pode variar significativamente.
O Povo participa através de professores, famílias, alunos e comunidades locais.
Como tenho vindo aqui a referir, nenhum destes elementos atua isoladamente. Uma alteração em qualquer deles produz efeitos nos restantes.
Quando observamos apenas um dos lados da equação, compreendemos pouco. Quando observamos as ligações entre todos eles, começamos a perceber a complexidade do sistema.
A economia entra na sala de aula
Existe uma pergunta desconfortável que merece reflexão. A escola deve preparar cidadãos ou trabalhadores?
A resposta intuitiva é simples. Ambos.
Mas encontrar o equilíbrio é mais difícil.
As empresas procuram competências úteis. Os governos procuram crescimento económico.
As famílias procuram oportunidades para os filhos. Os alunos procuram um futuro estável.
Tudo isto é legítimo. Mas quando a educação passa a ser vista apenas como preparação para o mercado de trabalho, corre-se o risco de esquecer outras dimensões.
Pensamento crítico.
Participação cívica.
Compreensão histórica.
Capacidade de viver em comunidade.
Uma sociedade precisa de profissionais competentes. Mas também precisa de cidadãos capazes de compreender o mundo onde vivem.
A tecnologia e a nova competição pelo conhecimento
Durante grande parte da história humana, a escola era uma das principais portas de acesso ao conhecimento. Hoje já não é assim.
Um aluno transporta no bolso mais informação do que aquela que estaria disponível em muitas bibliotecas há poucas décadas.
Vídeos.
Podcasts.
Redes sociais.
Motores de busca.
Inteligência artificial.
A escola deixou de competir apenas com a ignorância. Compete agora com uma abundância quase infinita de informação. Isto altera profundamente a questão.
Talvez o desafio já não seja apenas ensinar conhecimento.
Talvez seja ensinar a navegar no conhecimento.
A distinguir informação de desinformação.
A separar evidência de opinião.
A formular perguntas melhores.
O que acontece quando deixamos de perguntar?
Talvez uma das consequências mais interessantes da educação não seja aquilo que aprendemos. Mas aquilo que aprendemos a questionar.
Uma pessoa pode esquecer datas.
Fórmulas.
Definições.
Acontece a todos.
Mas a capacidade de fazer perguntas relevantes pode acompanhá-la durante toda a vida. Por isso, uma educação saudável talvez não seja apenas aquela que transmite respostas.
Talvez seja aquela que desenvolve curiosidade.
Porque uma sociedade que deixa de fazer perguntas torna-se mais vulnerável a respostas simplistas. E os problemas complexos raramente se resolvem com respostas simples.
O poder invisível da seleção
Voltemos à pergunta inicial.
“Quem decide o que aprendemos?”
Talvez a questão mais importante não seja aquilo que está presente nos programas. Talvez seja aquilo que está ausente. Porque tudo o que ensinamos ocupa espaço. Mas tudo aquilo que deixamos de ensinar também produz consequências.
Uma sociedade que ignora a sua história corre determinados riscos.
Uma sociedade que ignora ciência corre outros.
Uma sociedade que ignora cidadania enfrenta desafios diferentes.
Nenhuma escolha é neutra.
Nenhuma ausência é completamente inocente.
E é precisamente por isso que a educação é um tema tão importante. Não apenas para as escolas. Mas para toda a sociedade.
Um desafio
Experimente fazer um exercício simples.
Pergunte a um estudante universitário, a um aluno do ensino secundário ou até a si próprio:
– Quais foram os três conhecimentos mais úteis que a escola lhe transmitiu?
– E quais foram os três conhecimentos importantes para a vida que nunca lhe ensinaram?
As respostas serão provavelmente diferentes. Mas talvez revelem algo interessante. A distância entre aquilo que aprendemos e aquilo que julgamos precisar de saber. E essa distância diz muito sobre uma sociedade.
Talvez a pergunta esteja incompleta
A pergunta inicial era:
“Quem decide o que aprendemos?”
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante. Porque o verdadeiro desafio não está apenas em decidir o que ensinar. Está em compreender porquê.
Quem controla a transmissão do conhecimento influencia, inevitavelmente, a forma como uma sociedade compreende o passado, interpreta o presente e imagina o futuro. Talvez por isso a questão mais profunda não seja quem escolhe os conteúdos de um currículo.
Talvez seja:
“Se cada geração decide aquilo que considera importante transmitir à seguinte, estaremos a preparar os jovens para compreender o mundo que receberam… ou apenas para se adaptarem ao mundo que herdaram?”