Entre aquilo que sabemos e aquilo em que acreditamos
Por Manuel Rosa – 7 minutos de leitura
Pegue no telemóvel.
Abra uma rede social, um site de notícias ou uma aplicação de mensagens. Demorará poucos segundos até encontrar uma afirmação apresentada como verdade.
“O país está pior do que nunca.”
“A economia está a recuperar.”
“Os jovens não querem trabalhar.”
“A imigração é o problema.”
“A imigração é a solução.”
“As alterações climáticas são uma ameaça existencial.”
“As alterações climáticas são exageradas.”
Agora faça uma pausa. E coloque uma pergunta simples. Acabou de ler uma informação ou uma opinião?
A resposta parece óbvia.
Mas, quanto mais observamos o mundo atual, mais percebemos que nem sempre é.
O problema visível
Vivemos numa época em que nunca foi tão fácil aceder à informação. Mas também nunca foi tão fácil confundir informação com opinião.
Muitas vezes acreditamos estar a consumir factos quando estamos apenas a consumir interpretações. Outras vezes rejeitamos factos porque não gostamos das conclusões que deles podem resultar. E, por vezes, fazemos algo ainda mais curioso. Confundimos repetição com verdade.
Se ouvirmos uma ideia vezes suficientes, começamos a tratá-la como conhecimento estabelecido. Mesmo quando nunca verificámos a sua origem.
O problema não é novo.
O que mudou foi a escala.
Informação não é o mesmo que opinião
A distinção parece simples.
Informação procura descrever a realidade.
Opinião procura interpretar a realidade.
Por exemplo:
“Portugal tem cerca de dez milhões de habitantes.”
Isto é uma informação.
“Portugal tem demasiados habitantes.”
Isto já é uma opinião.
Mas as coisas tornam-se mais difíceis quando as duas dimensões se misturam. Imagine a seguinte frase:
“O número de habitantes aumentou significativamente nos últimos anos.”
A informação pode ser correta. Mas o significado atribuído a esse facto pode variar.
Para uns, representa dinamismo económico. Para outros, pressão sobre habitação e serviços públicos.
O facto pode ser o mesmo. As interpretações podem ser diferentes.
É aqui que muitos debates públicos começam. E, muitas vezes, é aqui que muitos deixam de distinguir aquilo que sabem daquilo que acreditam.
O problema não está apenas nos outros
É tentador imaginar que a confusão entre informação e opinião acontece sobretudo aos outros.
Aos jornalistas.
Aos políticos.
Aos comentadores.
Às redes sociais.
Mas talvez a questão seja mais desconfortável. Todos nós fazemos isto.
Eu faço.
O leitor provavelmente também.
Porque os seres humanos não são máquinas de análise. Somos criaturas de significado.
Quando recebemos informação, não a armazenamos simplesmente. Interpretamo-la. Relacionamo-la com experiências anteriores.
Com valores.
Com receios.
Com expectativas.
Com identidade.
O cérebro não procura apenas compreender o mundo. Procura construir uma narrativa coerente sobre ele. E é precisamente por isso que distinguir informação de opinião exige esforço.
Porque é tão difícil?
Uma das razões é que a realidade raramente fala por si. Pense no desemprego.
Uma taxa pode subir. O que significa isso?
Crise económica?
Mudança tecnológica?
Transformação demográfica?
Alteração estatística?
Problema temporário?
Problema estrutural?
Os números ajudam. Mas não explicam tudo. Precisamos de interpretação.
O problema surge quando esquecemos onde termina a informação e começa a interpretação. Porque, nesse momento, passamos a tratar opiniões como factos. Ou a rejeitar factos por não gostarmos das opiniões associadas.
O papel dos incentivos
Existe outro elemento importante. Os incentivos.
Uma explicação complexa exige tempo. Uma explicação simples exige apenas alguns segundos.
As redes sociais recompensam velocidade.
Os ciclos noticiosos recompensam novidade.
Os algoritmos recompensam atenção. E a atenção tende a ser capturada por emoções fortes.
Indignação.
Medo.
Esperança.
Raiva.
Entusiasmo.
Por isso, muitas vezes, aquilo que circula mais depressa não é necessariamente a informação mais rigorosa. É a informação mais apelativa. Ou a opinião mais mobilizadora.
Não porque exista uma conspiração. Mas porque os incentivos favorecem determinados comportamentos.
Quem decide o que vemos?
Quando pensamos em informação, imaginamos uma relação simples. Alguém produz. Alguém recebe. Mas os sistemas modernos são mais complexos.
Jornalistas selecionam notícias.
Editores escolhem prioridades.
Algoritmos organizam conteúdos.
Empresas definem plataformas.
Governos estabelecem regras.
Utilizadores partilham mensagens.
Cada decisão influencia aquilo que chega ao nosso ecrã. Ninguém controla completamente o sistema. Mas muitos atores influenciam partes dele. Por isso, quando discutimos informação, estamos também a discutir instituições, tecnologia, economia e poder.
Governo, Território e Povo
A questão da informação não pertence apenas aos meios de comunicação. Atravessa toda a sociedade.
O Governo depende de informação para tomar decisões.
O Território influencia o acesso à informação, através de infraestruturas, educação e conectividade.
O Povo interpreta, partilha, aceita ou rejeita aquilo que recebe.
Quando estas três dimensões funcionam bem, a sociedade consegue discutir problemas de forma relativamente informada. Quando falham, surgem dificuldades.
Desinformação.
Polarização.
Desconfiança.
Fragmentação.
Por isso, a qualidade da informação não é apenas um problema mediático. É também um problema cívico.
A educação para fazer perguntas
Durante muito tempo associámos educação à transmissão de respostas. Mas talvez uma das competências mais importantes do século XXI seja outra. Aprender a fazer perguntas.
Quem disse isto?
Como sabe?
Que dados sustentam esta afirmação?
Existem outras interpretações possíveis?
O que não está a ser dito?
Que interesses podem estar presentes?
Estas perguntas não transformam ninguém num especialista. Mas ajudam a reduzir a probabilidade de sermos manipulados. Porque a literacia pública não consiste em saber tudo. Consiste em saber questionar.
O risco de perder a confiança
Existe ainda uma consequência menos visível.
Quando as pessoas deixam de distinguir informação de opinião, a confiança começa a deteriorar-se.
Primeiro desconfiamos de uma notícia.
Depois de um jornal.
Depois de uma instituição.
Depois de todas as instituições.
Chega então um momento curioso. Nada parece credível.
Tudo parece propaganda.
Tudo parece manipulação.
Mas uma sociedade onde ninguém acredita em nada, enfrenta um problema tão grave quanto uma sociedade onde todos acreditam em tudo. Porque a vida coletiva exige algum grau de confiança partilhada. Sem ela torna-se difícil cooperar.
Difícil deliberar.
Difícil decidir.
Difícil governar.
Um desafio ao leitor
Durante a próxima semana experimente algo simples.
Sempre que encontrar uma notícia, uma publicação ou um comentário que desperte uma reação emocional forte, não responda imediatamente. Antes de concordar ou discordar, pergunte:
Qual é a informação?
Qual é a opinião?
O que sei realmente?
O que estou apenas a assumir?
Pode parecer um exercício banal. Mas talvez descubra algo interessante. Muitas das nossas certezas assentam menos em conhecimento do que imaginávamos. E muitas das nossas discordâncias resultam menos dos factos do que das interpretações que fazemos deles.
Talvez falte algo à pergunta
A pergunta inicial era:
“Como distinguir informação de opinião?”
É uma questão importante. Mas talvez exista outra ainda mais profunda. Porque uma democracia não depende apenas da existência de informação. Depende da capacidade dos cidadãos para a interpretar de forma crítica.
Talvez por isso a verdadeira questão não seja apenas distinguir factos de opiniões. Talvez seja:
“Se vivemos rodeados de informação, mas cada vez mais dependentes de terceiros para a interpretar, estaremos realmente a compreender melhor o mundo… ou apenas a escolher em quem delegamos a tarefa de pensar por nós?”