Entre os números que contamos e as pessoas que esquecemos
Por: Manuel Rosa – 8 minutos de leitura
Numa manhã de terça-feira, um funcionário municipal abriu uma folha de cálculo.
Naquela tabela havia milhares de linhas.
Idades.
Moradas.
Rendimentos.
Níveis de escolaridade.
Situações profissionais.
Números.
Muitos números.
Nenhum nome.
Nenhuma fotografia.
Nenhuma história.
Para quem observasse aquele ficheiro sem contexto, poderia parecer apenas um conjunto de dados estatísticos. Mas cada linha representava uma pessoa.
Alguém que acordara cedo para trabalhar.
Alguém preocupado com a prestação da casa.
Alguém que cuidava de um familiar dependente.
Alguém à procura do primeiro emprego.
Alguém que se sentia sozinho.
Alguém que tinha acabado de ser pai.
Alguém que acabara de perder alguém.
Olhei certa vez para uma tabela semelhante e dei por mim a pensar numa questão estranha. Em algum momento, para que uma sociedade funcione, as pessoas precisam de ser transformadas em números. Mas o que acontece quando começamos a olhar para as pessoas apenas como números?
E mais importante ainda:
“O que acontece quando deixamos de nos ver como parte de um povo?”
Porque precisamos dos números
À primeira vista, a pergunta parece injusta. Afinal, os números são indispensáveis. Sem eles não saberíamos quantos alunos existem.
Quantos hospitais são necessários.
Quantas casas faltam.
Quantos idosos vivem sozinhos.
Quantas crianças nascem.
Quantas empresas encerram.
Uma sociedade moderna não pode funcionar sem estatísticas.
Não pode planear sem informação.
Não pode decidir sem medir.
Os números ajudam os governos a distribuir recursos.
Ajudam investigadores a compreender problemas.
Ajudam empresas a investir.
Ajudam cidadãos a avaliar políticas públicas.
O problema não está nos números. O problema surge quando confundimos aquilo que é mensurável com aquilo que é importante.
O que os números não mostram
Imagine duas cidades com exatamente a mesma população.
O mesmo rendimento médio.
O mesmo número de escolas.
O mesmo número de hospitais.
Os mesmos indicadores económicos.
À primeira vista, parecem iguais. Mas e se numa delas as pessoas confiarem umas nas outras?
E na outra não?
E se numa delas existirem associações locais ativas?
E na outra quase ninguém participar?
E se numa delas os vizinhos se conhecerem?
E na outra viverem como estranhos?
Subitamente percebemos que os números contam apenas parte da história. Porque existem aspetos fundamentais da vida coletiva que são difíceis de medir.
Confiança.
Sentido de pertença.
Cooperação.
Identidade.
Solidariedade.
Participação.
Nenhum destes elementos cabe facilmente numa folha de cálculo. Mas todos influenciam profundamente a forma como uma sociedade funciona.
Quando o povo desaparece da conversa
Há uma mudança subtil que parece ocorrer em muitas sociedades modernas.
Falamos frequentemente de contribuintes.
Consumidores.
Eleitores.
Utilizadores.
Recursos humanos.
Mercado de trabalho.
Capital humano.
São expressões úteis. Mas repare numa curiosidade. Cada uma delas descreve apenas uma parte da pessoa.
O contribuinte paga impostos.
O consumidor compra.
O eleitor vota.
O trabalhador produz.
Mas o povo é mais do que a soma destas funções. Um povo é uma comunidade que partilha instituições, memórias, conflitos, expectativas e projetos coletivos.
Quando reduzimos as pessoas apenas às funções que desempenham, algo importante se perde pelo caminho.
O incentivo para simplificar
Na verdade, existe uma razão para isto acontecer. Os sistemas complexos precisam de simplificação.
Um ministério não consegue conhecer individualmente milhões de cidadãos.
Uma autarquia não pode acompanhar detalhadamente cada família.
Uma empresa não consegue compreender a vida completa de cada cliente.
Para gerir grandes sistemas, simplificamos.
Criamos categorias.
Indicadores.
Médias.
Percentagens.
Modelos.
O problema é que aquilo que facilita a gestão pode dificultar a compreensão.
Quanto maior a escala, maior a tentação de transformar pessoas em abstrações. E quanto mais abstratas se tornam as pessoas, mais fácil é esquecer que cada número representa uma vida concreta.
Governo, Território e Povo
Talvez seja aqui que a questão ganha profundidade.
Porque um país não é apenas um governo. Nem apenas um território. Nem apenas uma população. É a relação entre os três.
O Governo organiza.
O Território condiciona.
O Povo vive, participa, coopera e legitima.
Quando um destes elementos é reduzido a uma simples variável administrativa, surgem problemas.
Um território pode ser visto apenas como espaço económico.
Um governo pode ser visto apenas como máquina burocrática.
Um povo pode ser visto apenas como estatística demográfica.
Mas nenhum deles funciona verdadeiramente dessa forma. Todos dependem de relações humanas complexas.
A demografia não são apenas números
Pensemos, por exemplo, na demografia.
Muitas vezes ouvimos falar de envelhecimento da população.
Baixa natalidade.
Migrações.
Escassez de mão de obra.
Tudo isto surge apresentado através de gráficos e percentagens. Mas o que significam realmente esses números?
Uma taxa de natalidade mais baixa pode significar jovens que adiam projetos familiares.
Pode significar dificuldade em encontrar habitação.
Pode significar insegurança económica.
Pode significar mudanças culturais.
Pode significar escolhas individuais legítimas.
Uma estatística resume o fenómeno. Mas não explica a sua história.
A tecnologia e o risco da abstração
A tecnologia trouxe benefícios extraordinários.
Permite conhecer padrões invisíveis.
Antecipar necessidades.
Melhorar serviços.
Mas também introduziu um novo desafio.
Hoje, grande parte das decisões é apoiada por dados.
Os algoritmos classificam.
Agrupam.
Priorizam.
Selecionam.
Recomendam.
Tudo isto aumenta eficiência. Mas existe um risco.
Começarmos a acreditar que aquilo que não pode ser facilmente medido não tem importância.
Ora, algumas das dimensões mais importantes da vida coletiva continuam difíceis de quantificar.
A confiança entre cidadãos.
O sentimento de exclusão.
A perceção de justiça.
O sentido de pertença.
A esperança.
Ou a falta dela.
O que acontece quando deixamos de ser povo?
Talvez esta seja a pergunta mais importante.
“O que acontece quando as pessoas deixam de se ver como parte de uma comunidade?”
As consequências raramente aparecem de imediato. Surgem lentamente.
Menor participação cívica.
Menor confiança institucional.
Maior polarização.
Maior isolamento social.
Maior dificuldade em construir consensos.
As pessoas continuam a viver no mesmo território. Continuam sujeitas às mesmas leis. Continuam a partilhar infraestruturas. Mas deixam gradualmente de sentir que pertencem ao mesmo projeto coletivo. E quando isso acontece, os desafios deixam de ser apenas políticos ou económicos.
Passam a ser sociais.
E até culturais.
O povo é uma construção permanente
Há algo que me parece particularmente interessante.
Costumamos falar de “o povo” como se fosse uma realidade permanente. Mas talvez não seja. Talvez o povo seja algo que precisa de ser continuamente construído.
Na escola.
Na família.
Nas associações.
Nas comunidades locais.
Na forma como debatemos.
Na forma como discordamos.
Na forma como participamos.
Nenhuma destas atividades produz riqueza imediata.
Nenhuma aparece diretamente nos mercados financeiros.
Nenhuma gera manchetes frequentes.
Mas todas contribuem para algo essencial. A capacidade de uma sociedade continuar a funcionar como comunidade.
Um desafio ao leitor
Experimente fazer um exercício simples.
Durante os próximos dias, quando ouvir uma notícia que mencione números — desemprego, imigração, natalidade, habitação, educação, saúde ou crescimento económico — faça uma pergunta adicional.
Quem são as pessoas por detrás destes números?
Que histórias estão escondidas naquela estatística?
Que escolhas fizeram?
Que dificuldades enfrentam?
Que expectativas têm?
Que futuro imaginam?
Talvez descubra que compreender uma sociedade exige mais do que conhecer indicadores. Exige compreender pessoas.
Talvez a pergunta esteja errada
A pergunta inicial era:
“Somos povo… ou apenas números?”
A resposta mais honesta talvez seja que somos ambos.
Precisamos dos números para compreender a realidade. Mas precisamos das pessoas para lhe dar significado.
Os números ajudam-nos a gerir sociedades. Mas não conseguem substituir aquilo que torna uma sociedade humana.
A confiança.
A pertença.
A cooperação.
A responsabilidade partilhada.
Talvez por isso a verdadeira questão não seja saber se somos povo ou números. Talvez a questão mais importante seja esta:
“Se uma sociedade começa a medir tudo aquilo que consegue contar, estará também a cuidar daquilo que conta verdadeiramente, mas que não cabe em nenhuma estatística?”