Porque queremos tudo… já?

Por: Manuel Rosa – 18 de Agosto de 2026 – 9 minutos de tempo de leitura


Há uma pergunta que quase todas as crianças fazem durante uma viagem longa.

Ao fim de poucos minutos, mesmo antes de metade do caminho estar percorrida, ouve-se inevitavelmente:

— Já chegámos?

Os adultos sorriem. Explicam que ainda falta muito. A criança espera mais alguns minutos.

E volta a perguntar.

Curiosamente, passamos a vida a rir-nos desta impaciência infantil. Mas talvez devêssemos rir-nos um pouco menos. Porque muitos adultos fazem exatamente a mesma pergunta. Só muda o destino.

Compramos um livro e esperamos aprender rapidamente.

Começamos um ginásio e queremos resultados ao fim de duas semanas.

Plantamos uma árvore e perguntamos porque ainda faz tão pouca sombra.

Mudamos de emprego e queremos sentir-nos realizados logo no primeiro mês.

Mudamos de governo… e perguntamos, poucas semanas depois:

— Então? Ainda não resolveu isto?

Durante muito tempo achei que este comportamento era apenas ansiedade. Hoje suspeito que seja algo mais profundo.

Talvez estejamos a perder a capacidade de distinguir aquilo que demora dias… daquilo que precisa de anos. E esta diferença pode explicar muito do que acontece à nossa volta.

Pense numa árvore.

Ninguém espera que uma bolota se transforme num carvalho de um dia para o outro.

Aceitamos naturalmente que algumas coisas crescem devagar. Aliás, quanto mais valiosas costumam ser, mais tempo exigem.

Uma floresta demora décadas.

Um bom vinho precisa de envelhecer.

Uma amizade constrói-se ao longo dos anos.

A confiança ganha-se lentamente.

Até um filho precisa de muitos anos para se tornar adulto.

É curioso. Naquilo que realmente importa, quase nunca esperamos resultados imediatos. Mas quando entramos no mundo da política parece acontecer exatamente o contrário.

Queremos mudanças rápidas.

Queremos soluções imediatas.

Queremos sentir que tudo começou finalmente a funcionar.

Talvez porque confundimos velocidade com progresso.

Há uma experiência simples que pode fazer. Pense em três objetos que utiliza todos os dias.

Talvez um telemóvel.

Talvez uma estrada.

Talvez a água que sai da torneira.

Agora pergunte-se:

Quanto tempo demorou cada um deles a existir?

O telemóvel foi concebido ao longo de alguns anos.

A estrada pode ter levado vários anos a planear e a construir.

A rede de abastecimento de água talvez tenha começado há várias décadas.

No entanto, quando abre a torneira, tudo parece instantâneo.

Vivemos rodeados de resultados lentos… mas habituámo-nos a consumi-los como se fossem imediatos.

Talvez seja esta ilusão que molda muitas das nossas expectativas.

Existe uma razão curiosa para isto. Nem tudo muda à mesma velocidade.

Aliás, talvez uma sociedade seja precisamente isto. Um conjunto de relógios diferentes a funcionar ao mesmo tempo.

A tecnologia muda muito depressa. Ainda há poucos anos a inteligência artificial parecia assunto de filmes. Hoje escreve textos, traduz línguas, cria imagens e responde a perguntas em segundos.

A economia muda mais devagar.

As empresas adaptam-se.

Os mercados reorganizam-se.

Novos empregos aparecem.

Outros desaparecem.

Mas isto leva anos.

As leis demoram ainda mais. Entre uma ideia, uma proposta, a discussão, a aprovação e a aplicação podem passar meses ou anos.

Depois existem as instituições.

Universidades.

Hospitais.

Tribunais.

Forças Armadas.

São organizações construídas para durar. Mudam lentamente. E talvez seja bom que assim seja.

Imagine um tribunal onde as regras mudassem todas as semanas.

Ou uma universidade que alterasse completamente os seus cursos todos os anos.

A estabilidade também tem valor.

Depois vem a cultura.

A forma como educamos os filhos.

Os hábitos.

Os costumes.

As maneiras de trabalhar.

Estas mudanças raramente acontecem numa geração. Por vezes precisam de várias.

E há sistemas ainda mais lentos.

A demografia. Uma criança que nasce hoje só entrará plenamente no mercado de trabalho dentro de cerca de vinte anos.

As decisões tomadas hoje produzirão efeitos quando muitos dos atuais governantes já não estiverem em funções.

Finalmente existe o território.

Montanhas.

Rios.

Cidades.

Florestas.

Linhas ferroviárias.

Bairros.

Tudo muda.

Mas quase sempre muito mais devagar do que imaginamos.

Talvez o maior erro seja esperar que todos estes relógios avancem ao ritmo do nosso telemóvel. E, no entanto, é exatamente isso que muitas vezes fazemos.

Durante muito tempo pensei que os grandes problemas da democracia eram ideológicos. Hoje começo a suspeitar de outra hipótese.

Talvez uma parte do problema seja cronológica. Vivemos cada vez mais depressa. Mas continuamos a depender de sistemas que, por natureza, evoluem lentamente. E isto cria uma tensão permanente.

As consequências desta diferença de ritmos aparecem por todo o lado.

Imagine um jovem casal que procura casa.

Os preços sobem rapidamente.

Os juros aumentam em poucos meses.

As rendas mudam de um contrato para o outro.

Mas construir um novo bairro para aumentar a oferta, pode demorar dez anos.

Primeiro é preciso encontrar terreno.

Depois aprovar planos.

Realizar estudos ambientais.

Projetar infraestruturas.

Lançar concursos.

Construir estradas, redes de água, eletricidade, escolas, centros de saúde.

O problema apareceu depressa. A solução demora. Entretanto, a frustração cresce.

É fácil concluir que ninguém fez nada.

Talvez seja mais rigoroso dizer que algumas soluções simplesmente não conseguem acompanhar a velocidade com que os problemas surgem.

Repare.

Não estamos a desculpar decisões erradas. Estamos apenas a descobrir que alguns problemas têm uma velocidade diferente da das suas soluções.

O mesmo acontece na educação.

Imagine que amanhã um governo decide reformar completamente o ensino.

Novos currículos.

Novos métodos.

Novos professores.

Nova avaliação.

Quando saberemos se funcionou?

Daqui a seis meses?

Provavelmente não. Nem daqui a dois anos. Talvez só quando as crianças que hoje entram na escola terminarem o seu percurso académico.

E talvez só muitos anos depois, quando estas crianças forem médicos, engenheiros, professores, empresários ou pais.

É curioso. Uma decisão tomada hoje pode só revelar toda a sua qualidade quando quase ninguém se lembra de quem a tomou.

Talvez seja por isso que a educação seja um dos investimentos mais difíceis da democracia. Quem paga o preço raramente recebe o reconhecimento.

Quem recebe os benefícios raramente se lembra de quem começou o caminho.

A saúde ensina uma lição semelhante.

Quando uma epidemia aparece, todos exigimos respostas imediatas. E é natural que assim seja.

Mas formar um médico demora muitos anos.

Uma vacina requer investigação, testes, aprovação.

Construir um hospital demora anos.

Criar confiança entre equipas demora ainda mais.

Há uma diferença importante entre responder a uma emergência e preparar um sistema. A primeira mede-se em dias. A segunda mede-se em décadas.

Talvez confundamos demasiadas vezes estas duas coisas.

Existe ainda outra ilusão.

Pensamos muitas vezes que acelerar resolve tudo. Mas nem sempre é verdade.

Imagine uma gravidez. Se pudesse reduzir nove meses para três, faria sentido?

Provavelmente não.

Porque existem processos que não são lentos por incompetência. São lentos porque precisam daquele tempo.

Uma criança não aprende a andar apenas porque os pais têm pressa.

Uma árvore não cresce mais depressa porque alguém aumentou o orçamento da floresta.

A confiança entre duas pessoas também não se constrói por decreto.

Algumas realidades obedecem ao relógio da natureza. Outras ao relógio da sociedade. Nenhuma delas aceita ordens da nossa impaciência.

Talvez a democracia tenha precisamente este problema.

Vivemos numa época em que quase tudo é imediato.

Enviamos uma mensagem e recebemos resposta em segundos.

Compramos um livro e chega no dia seguinte.

Vemos um filme quando queremos.

Pagamos uma conta com um toque no telemóvel.

Sem nos apercebermos, começamos a acreditar que todas as áreas da vida deveriam funcionar assim. Mas uma democracia não é uma aplicação instalada num telefone. É uma conversa permanente entre milhões de pessoas. E as conversas importantes nunca são instantâneas.

Há aqui um paradoxo curioso. Nunca tivemos tanta tecnologia para acelerar decisões. E, ao mesmo tempo, muitas decisões parecem demorar cada vez mais. À primeira vista parece uma contradição. Mas talvez não seja.

Quanto mais complexas se tornam as sociedades, mais pessoas são afetadas por cada decisão.

Construir uma barragem já não significa apenas produzir eletricidade. Significa pensar na agricultura.

No ambiente.

Na biodiversidade.

Nas populações deslocadas.

Na economia local.

Na segurança.

No turismo.

Na paisagem.

A decisão continua a ser uma. Mas as consequências multiplicam-se.

Talvez por isso decidir hoje seja mais lento do que há cinquenta anos. Não necessariamente porque existam mais burocratas. Mas porque existem muito mais relações que precisam de ser compreendidas.

Durante muito tempo ouvi dizer que os governos pensavam apenas nas próximas eleições. Há certamente casos em que isso acontece. Mas comecei a fazer outra pergunta.

Será que nós, cidadãos, deixamos espaço para pensar mais longe?

Quando um governante anuncia uma obra que ficará concluída daqui a quinze anos, quantos de nós valorizam essa decisão?

E quando anuncia uma medida que produz efeitos imediatos?

Qual recebe mais atenção?

Qual gera mais aplausos?

Talvez exista aqui uma responsabilidade que raramente discutimos. Os políticos respondem a incentivos. Como qualquer pessoa.

Se premiarmos sempre quem oferece resultados rápidos, talvez não devamos ficar surpreendidos quando quase todos passam a privilegiar o curto prazo.

Não porque o futuro deixe de importar. Mas porque o presente faz muito mais barulho.

Há uma frase que me acompanha há algum tempo.

Governar bem não é dizer ao povo o que ele quer ouvir; é ter a paciência rara de explicar aquilo que ele ainda não quer saber.

Mas talvez falte acrescentar outra.

Ser cidadão também exige uma forma de paciência. A paciência de aceitar que algumas das melhores decisões produzem benefícios que ainda não conseguimos ver.

É uma paciência difícil. Porque vivemos rodeados de ecrãs que nos habituaram ao imediato. Mas talvez seja uma das virtudes mais importantes de qualquer democracia.

Na próxima vez que ouvir alguém dizer que um problema “já devia estar resolvido”, experimente fazer um exercício simples. Primeiro pergunte:

Quanto tempo demorou este problema a formar-se?

Depois pergunte:

É razoável esperar que desapareça muito mais depressa do que apareceu?

Talvez descubra que alguns dos maiores desafios das sociedades modernas não resultam apenas de más decisões. Resultam do encontro entre dois relógios que nunca andam à mesma velocidade.

E talvez a verdadeira pergunta já não seja:

Porque queremos tudo… já?

Talvez seja outra.

“Seremos capazes de construir uma sociedade que pense para além da próxima semana… quando quase tudo à nossa volta nos ensina a esperar apenas pelo próximo minuto?”

Ou, ainda mais profundo:

Uma sociedade madura não é aquela que resolve tudo rapidamente. É aquela que consegue distinguir aquilo que pode ser acelerado daquilo que precisa de tempo para amadurecer.



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