Por: Manuel Rosa – 13 de Outubro de 2026 – 11 minutos de tempo de leitura
Já reparou como, quando encontramos uma criança que não vemos há algum tempo, uma das primeiras perguntas que fazemos é:
«Então, o que é que já sabes fazer?»
E ficamos admirados.
Já lê. Já escreve. Já faz contas. Já fala algumas palavras noutra língua. Já utiliza ferramentas que muitos adultos ainda têm dificuldade em compreender.
É extraordinário.
Mas há uma pergunta que raramente fazemos.
E o que é que essa criança ainda não teve tempo de aprender?
Brincar sem olhar para o relógio?
Aborrecer-se e descobrir o que fazer com o aborrecimento?
Aprender a perder?
Observar uma formiga durante vários minutos, sem que ninguém lhe pergunte o que aprendeu com isso?
Talvez pareçam coisas pequenas. Mas foi precisamente a pensar nestas pequenas coisas que me surgiu uma pergunta bastante maior.
Para onde estamos a correr?
Não queremos voltar à Idade da Pedra
Convém esclarecer uma coisa desde já.
Não quero voltar à Idade da Pedra.
Quero continuar a viver num mundo onde a medicina salva vidas, onde a ciência descobre tratamentos, onde a tecnologia nos liberta de tarefas penosas e onde podemos comunicar, em segundos, com alguém do outro lado do planeta.
Quero que continuemos a explorar os oceanos, o espaço e tudo aquilo que ainda desconhecemos.
A curiosidade humana é uma das nossas maiores riquezas.
Durante milhares de anos, enfrentámos limites que hoje quase esquecemos.
Doenças que não sabíamos tratar.
Distâncias que não conseguíamos percorrer.
Informação a que não tínhamos acesso.
Trabalhos que exigiam um enorme esforço físico.
E fomos encontrando soluções. Muitas delas transformaram profundamente a nossa vida.
Seria absurdo negar os benefícios deste progresso.
Mas talvez estejamos tão habituados a celebrar aquilo que conseguimos fazer que começámos a prestar menos atenção a outra questão.
O que estamos realmente a melhorar?
Preparar as crianças para quê?
Voltemos à escola.
Queremos que as crianças aprendam.
Que dominem a leitura, a escrita, a matemática e as ciências.
Que compreendam a história, conheçam outras culturas, aprendam línguas e desenvolvam competências que lhes permitam enfrentar um mundo complexo.
Naturalmente.
Mas também queremos que sejam capazes de viver neste mundo.
De cuidar de si próprias.
De compreender o que comem.
De cooperar.
De lidar com a frustração.
De respeitar quem pensa de maneira diferente.
De perceber que dependem de outras pessoas e de um planeta com recursos limitados.
De fazer escolhas.
E, sobretudo, de aprender a pensar por si próprias.
O problema talvez não esteja na quantidade de conhecimento que lhes transmitimos.
Pode estar na dificuldade em decidir que aprendizagens merecem o seu tempo e a nossa atenção.
Porque o tempo de uma criança também tem limites.
Uma hora dedicada a uma atividade não pode ser dedicada simultaneamente a outra.
E isto obriga-nos a escolher.
Mais uma atividade extracurricular?
Mais uma competência?
Mais uma preparação para um futuro profissional que ainda não conhecemos?
Ou tempo para brincar, conversar, experimentar, falhar e tentar novamente?
Não se trata de escolher entre conhecimento e infância. Trata-se de perguntar como podem coexistir.
E há aqui uma questão que vai muito além da escola.
Quem decide aquilo para que estamos a preparar as próximas gerações?
Quando mais deixou de ser suficiente
Há uma palavra que aparece muitas vezes nas nossas conversas.
Mais.
Mais conhecimento.
Mais produtividade.
Mais crescimento.
Mais rapidez.
Mais eficiência.
Mais oportunidades.
Em muitos casos, queremos tudo isso por boas razões.
Uma empresa mais produtiva pode oferecer melhores salários.
Um hospital mais eficiente pode tratar mais pessoas.
Uma descoberta científica pode permitir viver mais anos e com melhor saúde.
Mas será que mais significa sempre melhor?
Imagine uma cidade onde os transportes se tornaram mais rápidos.
As pessoas conseguem deslocar-se mais longe.
As empresas podem recrutar trabalhadores numa área maior.
As famílias passam a ter mais opções de habitação.
Tudo isto pode representar uma melhoria.
Mas imagine agora que essa possibilidade acaba por incentivar as pessoas a viver cada vez mais longe do emprego.
E que o tempo ganho com transportes mais rápidos é ocupado por deslocações maiores.
A cidade ficou mais eficiente. Mas será que os seus habitantes ganharam tempo?
Depende.
Depende de como organizámos a habitação, o trabalho, os transportes e a própria vida.
Uma melhoria numa parte do sistema não garante, por si só, uma melhoria no conjunto.
Talvez por isso devêssemos ter cuidado quando medimos o progresso apenas através daquilo que conseguimos produzir ou acelerar.
A pergunta não é apenas quanto melhorámos uma determinada capacidade. É também o que essa melhoria mudou na nossa vida.
E o que estamos a deixar para trás?
Há aprendizagens que não cabem facilmente numa avaliação.
Aprender a ouvir alguém com quem discordamos.
Cuidar de uma pessoa doente.
Esperar.
Reconhecer um erro.
Pedir ajuda.
Resolver um problema com as próprias mãos.
Perceber de onde vem a comida que colocamos na mesa.
Aprender que nem tudo o que tem valor pode ser comprado.
Não são competências incompatíveis com a ciência, a tecnologia ou a preparação profissional.
Pelo contrário.
Podem ajudar-nos a utilizar melhor aquilo que sabemos.
Mas exigem tempo.
E algumas exigem também exemplos.
Uma criança pode aprender na escola a importância de proteger o ambiente e, ao mesmo tempo, crescer numa sociedade que a incentiva constantemente a consumir mais.
Pode aprender a importância da cooperação e viver rodeada de mensagens que valorizam sobretudo a competição.
Pode ouvir que a saúde é essencial e observar adultos que dificilmente encontram tempo para descansar.
Não significa que a escola esteja errada.
Nem que os adultos sejam incoerentes por natureza.
Significa que educamos também através da forma como organizamos a sociedade.
E talvez seja aqui que a pergunta sobre a educação se transforme noutra, bastante mais incómoda.
Que exemplo estamos a dar?
Quem escolhe a direção?
Durante muito tempo, uma parte importante do progresso consistiu em superar limitações.
Produzir alimentos em maior quantidade.
Reduzir a mortalidade.
Facilitar deslocações.
Aumentar o acesso ao conhecimento.
Continuamos a enfrentar desafios que justificam novas descobertas. Mas, à medida que aumentam as nossas capacidades, também aumentam as possibilidades de escolha.
Podemos desenvolver tecnologias para trabalhar mais depressa. Mas também podemos utilizá-las para trabalhar menos horas.
Podemos construir cidades que permitam deslocações mais rápidas. Mas também podemos organizá-las para que as pessoas precisem de se deslocar menos.
Podemos aumentar a quantidade de informação disponível nas escolas. Mas também podemos investir na capacidade de compreender, questionar e utilizar essa informação.
Nenhuma destas escolhas é necessariamente simples.
Todas envolvem custos, benefícios, prioridades e consequências.
E nem todos valorizamos as mesmas coisas.
Para uma pessoa, o sucesso pode significar uma carreira exigente e estimulante.
Para outra, pode significar ter tempo para acompanhar os filhos.
Para outra ainda, viajar, investigar, criar uma empresa, cuidar de familiares ou viver com menos necessidades materiais.
Não existe uma única resposta válida para todos.
Mas talvez exista uma pergunta que devêssemos fazer com mais frequência.
Estamos a criar uma sociedade onde as pessoas podem escolher diferentes formas de viver — ou uma sociedade onde quase todas sentem que têm de correr na mesma direção?
E então?
Talvez o problema não seja estarmos a avançar demasiado depressa. Em algumas áreas, até podemos precisar de avançar mais depressa.
Na descoberta de tratamentos.
Na redução da pobreza.
Na proteção dos ecossistemas.
Na procura de soluções para problemas que ainda não conseguimos resolver.
Mas avançar depressa não nos dispensa de perguntar para onde vamos.
E esta não é apenas uma questão para cientistas, políticos, professores ou empresários. Também diz respeito às pequenas decisões que tomamos todos os dias.
Da próxima vez que pensar em acrescentar mais uma atividade à agenda do seu filho, talvez valha a pena perguntar o que ficará de fora.
Da próxima vez que procurar uma forma de trabalhar mais depressa, talvez possa perguntar o que fará com o tempo que ganhar.
Da próxima vez que admirar uma nova tecnologia, talvez possa perguntar que problema esta resolve e que novas necessidades poderá criar.
E, sobretudo, da próxima vez que sentir que precisa de fazer mais, aprender mais, produzir mais ou chegar mais longe, talvez mereça a pena perguntar:
Mais… para quê?
Não tenho uma resposta definitiva. Aliás, não sei se existe uma única resposta. Mas começo a desconfiar de que uma sociedade não se torna necessariamente melhor apenas porque consegue fazer cada vez mais coisas.
Talvez também precise de saber o que quer fazer com elas.
E talvez a pergunta mais importante não seja: Até onde conseguimos chegar?
Mas outra, muito mais simples: Quando lá chegarmos, será esse o lugar onde queríamos estar?