Parte I — Porque parece que nunca estamos preparados?
Por: Manuel Rosa – 22 de Setembro de 2026 – 10 minutos de tempo de leitura
Nota ao leitor
Este ensaio começou por querer responder a uma pergunta muito simples: será que hoje planeamos demasiado?
Mas, à medida que fui escrevendo, percebi que a resposta estava noutro lugar.
Por isso decidi dividi-lo em duas partes.
Nesta primeira não lhe vou explicar nenhuma teoria. Gostava apenas de o convidar a reparar numa coisa que talvez também já lhe tenha acontecido.
Há dias tentei marcar um jantar com cinco amigos. Parecia uma tarefa simples.
Abri o telemóvel.
Enviei a primeira mensagem.
“Que tal na próxima semana?”
As respostas começaram a chegar.
Um podia terça-feira.
Outro só quinta.
Entretanto apareceu uma reunião.
Um dos filhos ficou doente.
Alguém entrou de prevenção no trabalho.
Outro tinha prometido visitar os pais.
Ao fim de alguns minutos desistimos.
Marcámos o jantar para dali a três semanas.
Quando pousei o telemóvel fiquei a pensar numa coisa curiosa.
Quando foi que um simples jantar passou a exigir tanta organização?
Talvez também já lhe tenha acontecido. Aliás, talvez nem seja preciso falar de um jantar.
Experimente marcar uma consulta.
Organizar um fim de semana.
Mudar de emprego.
Comprar casa.
Ou simplesmente combinar um almoço de família.
Quase tudo parece precisar de agenda.
Quase tudo precisa de confirmação.
Quase tudo depende de mais alguma coisa.
É curioso.
Passamos grande parte da vida a organizar pequenas coisas que, à primeira vista, pareciam simples.
“Agora não consigo.”
Há uma frase que oiço cada vez mais. E confesso que também a digo muitas vezes.
“Agora não consigo.”
Agora não consigo mudar de emprego.
Agora não consigo aceitar esse convite.
Agora não consigo visitar os meus pais.
Agora não consigo pensar em ter um filho.
Repare num detalhe. Raramente dizemos:
“Não quero.”
Dizemos quase sempre:
“Agora não consigo.”
Parece um pequeno detalhe. Mas talvez não seja. Porque “não quero” fala de vontade. “Agora não consigo” fala de circunstâncias.
É como se a vontade continuasse lá. Mas estivesse à espera que muitas outras peças encaixassem primeiro.
Há outra conversa que talvez também lhe seja familiar.
“Talvez para o ano.”
“Primeiro preciso de estabilizar.”
“Quando acabar este projeto.”
“Quando terminar de pagar a casa.”
“Quando os miúdos crescerem.”
“Quando tiver um pouco mais de tempo.”
É curioso.
O momento certo parece estar sempre um pouco mais à frente.
Como se a vida fosse uma lista de tarefas que nunca acaba verdadeiramente.
Resolvido um problema, aparece outro.
Compramos a casa. Agora é preciso mobilá-la.
Os filhos entram para a escola. Agora começam as atividades.
Terminamos um curso. Agora percebemos que talvez seja boa ideia fazer outro.
Mudamos de emprego. Agora queremos provar a nós próprios que fizemos a escolha certa.
Não há nada de errado nisto. É apenas… a vida.
Mas talvez nunca tenha sido tão difícil sentir que, finalmente, está tudo alinhado.
Os nossos pais também faziam planos
À primeira vista, nada disto parece novo.
Os nossos pais também faziam contas.
Os nossos avós também poupavam dinheiro.
Também escolhiam quando casar.
Também enfrentavam dificuldades.
Seria estranho pensar que só a nossa geração descobriu o planeamento (o planeamento familiar, o planeamento das despesas…).
Por isso comecei a desconfiar de outra coisa.
Talvez a diferença não esteja no facto de fazermos planos. Talvez esteja na quantidade de coisas que tentamos pôr a funcionar ao mesmo tempo.
Imagine dois casais.
Um há cinquenta anos. Outro hoje.
Os primeiros perguntam:
— Conseguimos sustentar uma família?
Os segundos fazem perguntas um pouco diferentes.
Conseguimos pagar a prestação da casa?
Há vaga na creche?
Os horários de trabalho são compatíveis?
Quem fica com os miúdos quando adoecerem?
Os avós vivem perto?
Vale a pena esperar mais um ano?
Nenhuma destas perguntas é estranha. Pelo contrário. São todas perfeitamente razoáveis.
O curioso é que já não aparecem uma de cada vez. Chegam todas ao mesmo tempo.
Nunca tivemos tanta ajuda… e talvez nunca nos tenhamos sentido tão pouco preparados.
Nunca estudámos tanto.
Nunca tivemos tanto acesso à informação.
Nunca existiram tantas aplicações para organizar o tempo.
Marcar uma consulta demora segundos.
Comprar uma viagem faz-se no telemóvel.
Pagamos contas sem sair de casa.
Falamos com pessoas do outro lado do mundo em poucos segundos.
À primeira vista, tudo isto deveria simplificar a vida.
E simplifica.
Mas há uma sensação que parece resistir. A de que ainda falta qualquer coisa.
Mais algum tempo.
Mais alguma estabilidade.
Mais alguma poupança.
Mais alguma segurança.
Como se cada decisão importante viesse acompanhada de uma lista invisível de condições que ainda não conseguimos reunir.
Também pensei, durante muito tempo, que isto era apenas uma impressão. Até começar a reparar noutras pequenas coisas.
A agenda nunca está verdadeiramente vazia
Há dias abri o calendário do telemóvel. Não procurava nada em especial. Só queria confirmar uma data. Foi então que reparei numa coisa. Quase não havia espaços livres.
Consultas.
Reuniões.
A escola.
O banco.
O dentista.
Um aniversário.
As compras.
Olhei para aquilo e sorri. Nenhuma daquelas tarefas era extraordinária. Era apenas… uma semana normal.
Depois imaginei uma pequena mudança.
Uma criança fica doente.
O médico desmarca uma consulta.
O comboio atrasa-se.
O computador avaria.
O carro decide não funcionar.
De repente, quase toda a semana precisa de ser reorganizada.
Foi nessa altura que me ocorreu uma ideia.
Talvez não estejamos cansados porque fazemos demasiadas coisas. Talvez estejamos cansados porque cada uma delas depende de demasiadas outras.
Confesso que esta ideia me acompanhou durante vários dias.
Será apenas falta de organização?
É fácil concluir que precisamos apenas de aprender a gerir melhor o tempo.
Comprar outra agenda.
Instalar mais uma aplicação.
Fazer um curso de produtividade.
Talvez tudo isto ajude. Mas será suficiente?
Conheço um casal que gostaria muito de ter um filho. Nunca disseram que não queriam. Dizem outra coisa.
“Ainda não.”
Primeiro querem terminar o mestrado.
Depois encontrar alguma estabilidade no trabalho.
Depois comprar casa.
Depois perceber se o contrato será renovado.
Depois garantir uma vaga na creche.
Quando falamos, nunca discutimos se querem ser pais. Falamos apenas sobre quando sentirão que chegou o momento certo. E, curiosamente, esse momento parece afastar-se sempre um pouco mais.
Talvez este ensaio nunca tenha sido sobre planeamento
Quando comecei a escrever estas linhas, estava convencido de que queria perceber porque passamos tanto tempo a planear. Hoje já não tenho tanta certeza.
Talvez o planeamento não seja o verdadeiro tema. Talvez seja apenas a parte visível de uma realidade muito maior. Uma realidade onde decisões aparentemente simples parecem depender de muitas outras.
Confesso que também não esperava chegar aqui.
Foi precisamente esta pergunta que transformou um artigo sobre agendas no ensaio que está agora a ler.
Na próxima parte tentaremos olhar para esta pergunta com mais atenção.
Não para encontrar um culpado.
Nem uma solução milagrosa.
Mas apenas para perceber uma coisa.
Quando foi que decisões aparentemente simples passaram a depender de tantas outras?
Porque talvez a resposta não esteja nas nossas agendas. Talvez esteja na forma como, sem darmos por isso, fomos organizando a vida em sociedade.
A conversa continua…
A reflexão da semana passada levou um leitor a recordar uma frase da mãe, hoje com 83 anos.
Quando lhe perguntam como anda, responde:
“Como Deus quer.”
E, quando era mais nova, perante o futuro:
“A Deus pertence.”
O leitor acrescentou outra observação que me ficou na cabeça.
A mãe costuma dizer que hoje “os dias passam a correr”, muito mais do que quando era nova.
O dia continua a ter 24 horas.
Talvez tenha mudado aquilo que tentamos colocar dentro dele.
Mas houve uma frase no comentário que me fez parar:
“O não fazer nada, o aborrecimento, é quase uma heresia.”
Esperamos cinco minutos e pegamos no telemóvel.
Temos uma tarde livre e procuramos ocupá-la.
As próprias crianças parecem precisar de ter o tempo organizado.
Talvez tenhamos aprendido a aproveitar melhor cada minuto.
Mas isso deixa-me com uma dúvida.
Durante muito tempo, o tempo vazio também serviu para conversar, imaginar, inventar, brincar — ou simplesmente não fazer nada.
Não sei se perdemos essa capacidade.
Mas talvez valha a pena fazer uma experiência.
Da próxima vez que tiver dez minutos sem nada para fazer, não faça nada para os preencher.
E veja o que acontece.
Talvez o aborrecimento não seja apenas tempo desperdiçado.
Talvez seja também um espaço que deixámos de saber para que serve.
Obrigado por esta reflexão.