E se os melhores nunca se candidatarem?

Por: Manuel Rosa – 01 de Setembro de 2026 – 10 minutos de tempo de leitura


Há uma pergunta que quase nunca fazemos.

“Porque é que alguém decide candidatar-se?”

É uma decisão curiosa.

Significa aceitar que a nossa vida deixe, em parte, de nos pertencer.

Significa saber que cada decisão será discutida.

Que cada erro será ampliado.

Que cada silêncio poderá ser interpretado.

Que a família também será observada.

Que haverá críticas justas.

E muitas injustas.

Apesar disso, centenas de pessoas apresentam, todos os anos, a sua candidatura a uma junta de freguesia, a uma câmara municipal, à Assembleia da República ou a outros cargos públicos.

Porque o fazem?

As respostas parecem óbvias.

Ambição.

Poder.

Prestígio.

Sentido de missão.

Vontade de mudar as coisas.

Provavelmente existem todas estas motivações.

Como existem em quase todas as profissões.

Quando um médico escolhe Medicina, fá-lo apenas por altruísmo?

Quando alguém cria uma empresa, procura apenas servir os clientes?

Quando um professor entra numa escola, fá-lo apenas pelo salário?

As motivações humanas raramente são puras.

Misturam vocação, ambição, necessidade, ego, serviço, realização pessoal e circunstâncias.

Porque haveria de ser diferente na política?

Mas talvez esta nem seja a pergunta mais interessante.

Talvez exista outra.

“Porque é que a esmagadora maioria de nós nunca considera essa possibilidade?”

Imagine que amanhã surgia um problema na sua terra.

A atual direção da junta demitia-se.

Era necessário formar uma nova equipa.

Depois de alguma conversa, alguém olhava para si.

— Porque não se candidata?

É curioso aquilo que acontece nesse instante.

Até aí, a conversa era fácil.

Todos tínhamos opiniões.

Sabíamos o que devia ser diferente.

O que devia ser prioritário.

O que estava mal organizado.

Mas basta esta pergunta para o ambiente mudar completamente.

“Eu?”

Quase todos começamos imediatamente a justificar-nos.

Não tenho tempo.

Não tenho perfil.

Não tenho dinheiro.

Não quero perder a minha privacidade.

Não quero que a minha família seja exposta.

Não quero viver permanentemente sob escrutínio.

Não quero passar anos a ouvir pessoas que nada sabem sobre mim explicar quem eu realmente sou.

São razões perfeitamente legítimas.

Talvez qualquer um de nós respondesse da mesma forma.

Mas talvez escondam uma realidade que raramente observamos.

Participar tem um custo.

Costumamos dizer que a democracia vive do voto.

É verdade.

Mas vive também de uma condição anterior.

Antes de podermos escolher alguém, alguém teve de aceitar ser escolhido.

É um detalhe tão evidente que quase nunca pensamos nele.

Uma democracia depende de pessoas comuns aceitarem fazer uma coisa extraordinariamente desconfortável.

Colocar o seu nome perante todos.

Aceitar críticas.

Aceitar responsabilidades.

Aceitar que muitas decisões nunca serão consensuais.

Aceitar que o erro deixa de ser privado.

Talvez seja este um dos paradoxos mais discretos da vida democrática.

Todos queremos poder escolher.

Poucos queremos ser uma das opções.

Quando falamos de política, é normal ouvir uma frase.

“Os políticos são todos iguais.”

Talvez alguns sejam.

Mas existe uma pergunta muito menos habitual.

Quem são aqueles que nunca chegaram a ser políticos?

Nunca conheceremos essas pessoas.

Nunca saberemos quantos excelentes presidentes de câmara nunca apresentaram uma candidatura.

Quantos professores poderiam ter sido excelentes ministros da Educação.

Quantos médicos poderiam ter ajudado a reorganizar um sistema de saúde.

Quantos empresários poderiam ter liderado uma região.

Quantos investigadores poderiam ter transformado uma política pública.

Nunca saberemos.

Porque desistiram antes de começar.

Não necessariamente por falta de competência.

Mas porque concluíram que o preço era demasiado elevado.

Talvez esta seja uma das perdas invisíveis da democracia.

Não apenas as más escolhas que fazemos.

Mas todas as boas escolhas que nunca chegaram a existir.

Há um aspeto curioso.

Quando uma empresa procura um diretor, preocupa-se em atrair talento.

Quando um hospital recruta médicos, tenta convencer os melhores.

Quando uma universidade escolhe professores, procura competência.

A pergunta parece evidente.

Quem são os melhores?

Mas raramente fazemos a mesma pergunta sobre a democracia.

Como atrai uma democracia os seus melhores cidadãos para funções públicas?

Ou, talvez mais inquietante ainda…

Será que, sem dar por isso, também os afasta?

Porque uma democracia não recruta através de anúncios de emprego.

Recruta através do ambiente que cria.

Se participar significar aceitar uma exposição permanente, uma suspeição constante e uma crítica que nunca termina, haverá sempre pessoas disponíveis para assumir essas funções.

Mas talvez não sejam exatamente as mesmas pessoas que teriam aceite servir num ambiente diferente.

Sem dar por isso, uma sociedade pode começar a selecionar não apenas os mais competentes.

Mas aqueles que melhor suportam esse preço.

São coisas diferentes.

Nada disto significa que devamos ser menos exigentes com quem exerce funções públicas.

Pelo contrário.

A democracia vive da transparência.

Do escrutínio.

Da crítica.

Da responsabilidade.

Quem decide por todos deve responder perante todos.

Mas existe uma diferença entre escrutinar e desencorajar.

Entre avaliar decisões e tornar qualquer participação num exercício de desgaste permanente.

Porque uma sociedade também educa futuros candidatos.

Nem sempre através das escolas.

Muitas vezes através da forma como trata aqueles que decidiram dar um passo em frente.

Mas há outra descoberta que me parece ainda mais interessante.

Nós avaliamos os políticos quase exclusivamente pelos resultados.

Raramente pensamos quando decidiram candidatar-se.

Imagine alguém que decide concorrer à presidência da junta da sua terra.

Sabe que vai perder privacidade.

Sabe que metade da população irá discordar de alguma decisão.

Sabe que qualquer erro será comentado no café, no Facebook e nas conversas de família.

Sabe que dificilmente enriquecerá.

Sabe que ficará associado a problemas que já existiam antes de chegar.

Mesmo assim, avança.

Porquê?

Talvez porque acredita que consegue melhorar alguma coisa.

Talvez porque alguém o convenceu.

Talvez porque sente um dever.

Talvez porque gosta do desafio.

Talvez porque gosta de mandar.

Talvez porque ainda não percebeu no que se está a meter.

A verdade é que nunca saberemos exatamente.

E talvez nem devêssemos procurar uma única resposta.

Porque há uma pergunta que me parece ainda mais desconfortável.

“O que acontece a uma democracia quando as pessoas mais competentes concluem que o preço de participar é demasiado elevado?”

Nunca tinha pensado muito nisto.

Mas imagine durante alguns minutos.

Se cada vez mais pessoas honestas, preparadas e equilibradas disserem:

“Prefiro continuar a comentar.”

Quem fica disponível para decidir?

Talvez seja esta a consequência invisível do ambiente político que criámos.

Passamos anos a dizer que precisamos de melhores políticos.

Mas, ao mesmo tempo, tornamos cada vez mais difícil a decisão de alguém querer tornar-se um deles.

E isto não significa que devamos deixar de criticar.

Numa democracia, a crítica é indispensável.

Significa apenas que talvez exista uma diferença entre escrutinar e afastar.

Entre exigir mais e tornar a função tão tóxica que apenas alguns estejam dispostos a aceitá-la.

No fundo, talvez a pergunta não seja apenas:

“Porque é que eles se candidatam?”

Talvez seja esta:

“Que tipo de sociedade estamos a construir quando tantos preferem continuar a comentar… em vez de tentar fazer melhor?”

Faça um pequeno exercício.

Pense em três pessoas.

Não procure políticos.

Pense simplesmente em três pessoas em quem confia.

Pessoas que respeita.

Pessoas equilibradas.

Competentes.

Honestas.

Aquelas pessoas a quem pediria um conselho importante.

Agora imagine que uma delas anunciava amanhã a intenção de se candidatar à presidência da sua câmara municipal.

A primeira pergunta é simples.

Ficaria satisfeito?

Provavelmente sim.

Mas agora faça a segunda.

Acha que essa pessoa aceitaria realmente candidatar-se?

Não dentro de um mundo ideal.

Hoje.

Na sociedade em que vivemos.

Com as redes sociais.

Com a exposição permanente.

Com a pressão sobre a família.

Com o escrutínio constante.

Qual foi a sua resposta?

Se respondeu “provavelmente não”, talvez tenha acabado de descobrir uma pergunta ainda mais importante.

Não é apenas quem chega aos cargos públicos.

É quem nunca chega sequer a tentar.

Talvez seja por isso que exista uma palavra que usamos demasiadas vezes.

“Alguém.”

Alguém devia resolver isto.

Alguém devia fazer melhor.

Alguém devia mudar as coisas.

É uma palavra confortável.

Permite-nos reconhecer um problema sem nunca nos obrigar a imaginar o rosto dessa pessoa.

Confiamos que esse alguém aparecerá.

Que terá coragem.

Tempo.

Disponibilidade.

Competência.

E aceitará pagar um preço que nós próprios preferimos evitar.

Talvez seja assim que muitas democracias funcionam.

A maioria permanece na bancada.

Alguns entram em campo.

Enquanto houver jogadores suficientes, o jogo continua.

Mas se começarmos a tornar o campo cada vez menos apelativo, talvez um dia descubramos que o problema nunca foi apenas a qualidade dos jogadores.

Era também o número de pessoas disponíveis para vestir a camisola.

Imagine, por um momento, uma experiência impossível.

Amanhã, todos os atuais políticos abandonam a vida pública.

Quem os substituiria?

A resposta parece simples.

“Outras pessoas.”

Claro.

Mas quem?

De onde viriam?

Quantas aceitariam?

Quantas estariam preparadas?

Quantas diriam simplesmente:

“Sim. Eu avanço.”

Talvez seja aí que a pergunta inicial se transforme.

Já não estamos apenas a discutir políticos.

Estamos a discutir a capacidade de uma sociedade produzir cidadãos dispostos a assumir responsabilidades.

Talvez nunca tenha pensado desta forma.

Quando observamos uma democracia, olhamos quase sempre para quem foi eleito.

Talvez devêssemos olhar também para quem nunca chegou a candidatar-se.

Porque a qualidade de uma democracia não depende apenas das pessoas que escolhemos.

Porque, no fim, uma democracia não é apenas aquilo que escolhe.

É também aquilo que consegue convencer os seus melhores cidadãos a aceitar ser escolhidos.

Depende igualmente das pessoas que, por qualquer razão, nunca chegaram a fazer parte dessa escolha.

E talvez uma das responsabilidades menos visíveis de todos nós seja precisamente esta:

Criar uma sociedade onde exigir responsabilidade nunca signifique tornar o serviço público um lugar onde apenas alguns estejam dispostos a entrar.

Porque uma democracia vive da liberdade de escolher.

Mas vive, antes disso, da existência de cidadãos que aceitam a possibilidade de um dia serem eles os escolhidos.




A conversa continua…

Um dos comentários recebidos esta semana fez-me parar para pensar.

Um leitor contava que decidiu deixar de ser apenas um “indignado do sofá”. Entrou numa pequena associação cívica e começou a assistir às Assembleias Municipais da sua cidade. E deixava uma pergunta simples: quantas pessoas participam realmente nesses momentos onde tantas decisões são discutidas?

Acrescentava ainda uma ideia que se liga diretamente ao artigo: os políticos não são um grupo à parte. São, ou poderiam ser, qualquer um de nós. Mas, dizia ele, hoje a pressão é cada vez maior e isso pode afastar muitas pessoas competentes da vida pública.

Não sei se existe uma resposta única.

Mas o comentário recordou-me que talvez a qualidade da democracia não dependa apenas das pessoas que elegemos. Depende também das pessoas que continuam disponíveis para participar, mesmo quando sabem que isso exige tempo, exposição e responsabilidade.

Talvez a pergunta não seja apenas “porque é que criticamos tanto os políticos?”

Talvez seja outra:

Como podemos construir uma sociedade onde mais cidadãos sintam que vale a pena dar um passo em frente?

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